Querida Guadalupe,

Talvez tenha demorado demasiado a te escrever porque não entenda a relação de freiras enclausuradas com o exterior. Por isso foi bom bom vê-la de novo no povoado que agora pouco lembra as ruas empoeiradas da nossa infância. Sua mãe foi uma pessoa incrível e tenho rezado pela alma dela.

Você não estava mais aqui quando tudo começou. Parece que até nos apaixonarmos a vida é uma antessala, uma espera de algo realmente significativo. E a minha ganhou novas cores em meio a um ringue de lucha libre. Como a cada dois anos, a competição estadual chegara, com sua tenda, bandeirinhas, alto-falantes anunciando as atrações. El loco, La sombra, Rey Misterio, Tormenta, Dragon Lee, dos Caras, Rey Tormenta. Mas nenhum era páreo para El Santo. Muito menos eu.

Depois do torneio, fui com as meninas papear com os lutadores, um flash de ação em nossas vidas tão bucólicas. E em meio a luzes, algodão doce, música de realejo, o papagaio tirou no papelzinho que o grande amor da minha vida estava chegando. Por trás daquela máscara um rapaz com sonhos, sorrisos e galanteios. Deslumbramentos. Que quando acabou a competição acabou ficando por mais dois meses e prometendo voltar. Mas depois ele nunca mais apareceu. Santo.

Ao pensar em seu louvor por Cristo penso realmente ser o amor que conduz nossas vidas. Pouco tempo depois me descobri grávida de Ignacio. Sonhava que o bebê nascia de máscara, que os tradicionais chutes eram golpes em uma arena materna. A criança nasceu com os olhos infinitos do pai, mas pouco ligou para a sua presença ou ausência. Ele até hoje se diz filho de mãe. Juntos crescemos, eu e ele inseparáveis.

Minha rotina nos últimos anos é a preparação e os shows. Os holofotes realmente chegaram para ficar na minha vida, como um fundo de madeira usado à exaustão em um estúdio de cinema. Costuro roupas em lantejoulas, arremato broches de pedras no canto das finas blusas de seda, escolho brincos, santos saltos pontiagudos. Desenho bocas glamurosas de batom vermelho, olhos de gatinho em lápis preto, bochechas cheias de vigor. E sorrio, sorrio muito. Canto, danço e aplaudo a cada apresentação.

Por mais que Ignacio diga que não tenha nada a ver com o pai, a vida me deu dois homens que escondem o rosto. Um na máscara de luta o outro nas suas extravagantes fantasias de drag queen. Ambos fortes, belos, poderosos. La Santa é um sucesso nos palcos e sou sua empresária, camareira e maior fã. Espero que Deus não se chateie, mas não consigo ter maior devoção que pelo meu filho. Por encher a minha vida de amor a cada dia, e por ser a mulher que nunca consegui ser.

Mande lembrança às irmãs, e espero em breve revê-la.

Com carinho,

Conceição.


DOMI VALANSI é carioca, jornalista, com especialização em Fotografia nas Ciências Sociais e Planejamento e Produção de Exposições. Desde 2011, trabalha com comunicação online de artes visuais e museus. No currículo: MAM Rio, ArtRio, Festival do Rio de Cinema, Rio2C, Museu Histórico da Cidade, Rio Memórias, FGV Arte, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, NFT.Rio, Museum Week, Revista Dasartes, entre outros.

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